O termo “Burnout”, cunhado pelo psicólogo Herbert Freudenberger na década de 1970, descreve o estado de exaustão física e mental de indivíduos que, antes dedicados e comprometidos, sucumbem a sintomas como fadiga crônica, cinismo e frustração. No entanto, embora a Organização Mundial da Saúde o classifique como um fenômeno ocupacional, a psicanálise nos convida a olhar para além do relógio de ponto e das planilhas de metas. É comum associarmos o esgotamento puramente ao volume de horas trabalhadas, mas, como bem pontua o psicanalista Christian Dunker, o Burnout não é apenas o excesso de trabalho, mas o fato de estar trabalhando separado do prazer.
Sob a ótica psicanalítica, o sofrimento se instala quando o sujeito se vê alienado de seu próprio desejo. Quando a atividade profissional deixa de ter um sentido subjetivo e passa a ser apenas uma resposta a uma exigência externa massacrante, o indivíduo entra em um processo de “exílio” de si mesmo. Trabalha-se muito, mas trabalha-se para o Outro, sem que haja retorno simbólico ou satisfação pessoal.
Um dos conceitos fundamentais para compreendermos essa dinâmica é o de Falso Self, desenvolvido por Donald Winnicott. No ambiente de trabalho, muitas vezes construímos uma “máscara” de competência e resiliência absoluta para sobreviver. Embora essa máscara tenha uma função protetora e adaptativa, quando ela se torna a única forma de existir, o indivíduo se desconecta de sua vitalidade. O resultado é um vazio existencial que nem a promoção mais alta consegue preencher, pois o Verdadeiro Self permanece escondido, sem espaço para respirar.
Sigmund Freud, em sua obra “O Mal-Estar na Civilização”, já nos alertava que a vida em sociedade exige a repressão de nossos instintos em troca de segurança e convivência, gerando um mal-estar inerente ao ser humano. No ambiente moderno, essa demanda externa foi hipertrofiada. A pressão constante por performance, a disponibilidade ininterrupta gerada pela tecnologia e a cultura do “entregar sempre mais” funcionam como uma sobrecarga sobre o ego. O indivíduo, tentando corresponder a um ideal de perfeição e produtividade, negligencia seus próprios limites e necessidades pulsionais. O resultado é o esgotamento: a bateria psíquica não suporta a voltagem exigida por uma civilização que não permite a pausa ou o erro.
Diferente de abordagens que buscam apenas “reabilitar” o indivíduo para que ele volte rapidamente à mesma engrenagem produtiva, a psicanálise propõe um caminho de escuta e ressignificação fundamentado em três frentes: primeiramente, trabalha-se na identificação dos ideais, ajudando o paciente a entender quais expectativas ele está tentando cumprir e a quem deseja agradar quando não consegue dizer não; em segundo lugar, promove-se o reencontro com o prazer, investigando o inconsciente para resgatar o que traz satisfação real e reconectar o sujeito com seu desejo; por fim, busca-se estabelecer o limite entre o eu e a demanda externa, fortalecendo o indivíduo para que ele compreenda que sua identidade não se resume ao seu cargo ou produtividade.
O Burnout é o grito do corpo quando o sujeito se perde de sua própria história. Olhar para esse esgotamento através da psicanálise é permitir-se parar, escutar essa exaustão e reconstruir um modo de vida onde o trabalho não seja um sacrifício do ser, mas uma das formas de expressão do sujeito no mundo.
Escrito por Paula Boracini, Psicanalista

